Hollywood Rock
A bondade de uma desconhecida transformou o que seria só um passeio num dia memorável. Gostaria de saber se ela se recorda do dia 13 de janeiro de 88 como eu me lembro.
Meu gosto por música começou cedo. Ouvia meus avós com suas músicas caipiras e fazendo dueto, meu avô no cavaquinho e minha vó cantando. Talvez os discos que tinha em casa – os compactos do Elvis e os long plays (lp) do Elton John da minha mãe, ou os discos do meu tio Geraldo, acabaram me influenciando ouvir sobretudo rock e pop. Beatles, Fleetwood Mac, Eric Clapton, Raul Seixas, Rolling Stones, Mutantes. De tudo um pouquinho. Sei que aos 11 anos já prestava atenção em música internacional, numa época em que mal tinha revista especializada. Fiquei impressionado com o que consegui ver e ouvir sobre o Rock in Rio, em janeiro de 1985. Estava num sítio, em MG, na casa de uma prima e, na tv chuviscando muito, consegui assistir a apresentação do Queen. Queria ter feito parte daquilo, daquele show.
Meu primeiro show de rock chegou também num janeiro, mas no ano de 1988. Aconteceu o primeiro Hollywood Rock oficial, numa época em que não tinha problema uma marca de cigarros voltada para o público jovem que curtia esportes radicais patrocinar um festival de música. A empreitada aconteceu no Rio de Janeiro e em São Paulo, em semanas diferentes, mas com os mesmos grupos e artistas: os nacionais Ira!, Titãs, Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Lulu Santos e Marina Lima. O time internacional contava com Pretenders, UB40 e Simple Minds, Simply Red, Duran Duran e Supertramp.
Show era algo bem menos acessível do que hoje e, os preços de algo tão grandioso eram proibitivos naquela época de inflação e com quantidades enormes de zeros na moeda, que já tinha mudado várias vezes de nome – a da vez era o cruzado novo, que já havia perdido três zeros. Eu já trabalhava, mas ganhava um salário mínimo e a maior parte ia pra quitarmos a casa que morávamos. Minha mãe, Aldrin, a minha irmã, e eu lutávamos pra pagar os atrasados e as prestações mensais de um sobradinho – meu pai já tinha picado a mula e a gente se virava como podia.
No dia 13 de janeiro de 1988, numa quarta-feira, minha irmã e eu estávamos de férias, mas com a cabeça no show, falávamos sobre aquilo que tinha sido o assunto por semanas, o Hollywood Rock. Meu tio, gente boa, baladeiro e com o pique de 35 anos, colocou os dois adolescentes dentro do fusquinha e nos levou pro estádio do Morumbi, pra ficarmos do lado de fora ouvindo o som e assistindo a movimentação. Era o que dava pra fazer. Levei um binóculos que tinha, pensando que talvez daria pra assistir lá de longe – por não me ligar em futebol, não fazia ideia de que seria impossível ver qualquer coisa do lado de fora.
Chegamos e ficamos perto da entrada, ouvindo os roadies ainda testando o som e a galera entrando, animada. Meu tio comprou pipoca e refri pra gente e ficamos ali, entretidos. O show começou e já dava pra ouvir o Ira! tocando as primeiras músicas do seu repertório ainda bem curto de apenas dois álbuns lançados. O Titãs começou a tocar suas músicas e, já não tinha quase ninguém do lado de fora do estádio. Minha irmã, sentada numa grade, começa a chorar, triste. Eu, ali, sem graça, sabia que não tinha nada que poderíamos fazer. Três lascados. Meu tio chamou a gente pra ir embora, mas minha irmã quis ficar mais um pouco.
Nisso, uma mulher chegou pra ela e perguntou:
– Porque você tá chorando?
– Eu queria entrar, mas a gente não tem ingresso, é muito caro. – disse Aldrin.
A mulher ficou chateada também, deu alguns passos, falou com uma pessoa que estava com ela e, voltou-se pra minha irmã:
– Toma, pra você! – e estendeu um ingresso.
Enquanto minha irmã pulava e arregalava os olhos, meu tio, mais ligeiro, correu e foi falar com a mulher. Ela e o namorado contaram que estavam esperando um grupo mas, pelo jeito, não chegariam pro show. Decidiram entrar e ainda tinham alguns ingressos. Meu tio conseguiu comprar mais dois pelo preço de meia entrada. A mulher era uma cambista às avessas, mas minha irmã jurava que ela era uma fada ou um anjo.
Assistimos o finalzinho da apresentação dos Titãs e, em seguida, vimos o show inteirinho dos Pretenders. Eu já conhecia algumas músicas da banda inglesa mas não sabia como Chrissie Hynde poderia ser uma mulher tão hipnótica com seu “shaggy hair”, lápis bem escuro marcando os olhos e sua voz de timbre bem específico com um trêmolo que ainda faz quando canta. Eu, com meu binóculos, conseguia enxergar bem ela cantando e fiquei ali, de queixo caído por ela. A estilosa americana que passou pelo punk, new wave, liderava uma banda, acabava de ganhar um novo título: minha crush secreta.
Aquele foi um dia feliz, pra todos nós. Inesperado, sem celular pra avisar que demoraríamos para voltar pra casa. Cansados mas radiantes. Sem grana mas com uma história incrível pra contar. Minha irmã ainda hoje diz que aquele foi um dos dias mais felizes da sua vida. Pra mim foi também, com certeza.
I found a picture of you
Those were the happiest days of my life
Like a break in the battle was your part
In the wretched life of a lonely heart
Now I'm back on the train
Back on the chain gang
Back on the Chain Gang, 1982
Eu encontrei uma foto sua
Foram os dias mais felizes da minha vida
Como uma trégua na batalha foi a sua parte
Na vida miserável de um coração solitário
Agora estamos de volta no trem
De volta à gangue da cadeia
Para ler, ouvir ou assistir
💿The Pretenders, Greatest Hits – na falta de um álbum, uma lista pra representar todas as fases da líder da banda inglesa. Chrissie Hynde sobreviveu à perda de dois integrantes da banda por overdose e se mantém ativa, tanto musicalmente quanto lutando pelos direitos dos animais. A líder dos Pretenders já passou dos 70 e continua uma mulher poderosa, estilosa e ainda faz seu tremolo vocal.
🎬Quase Famosos (Almost Famous, 2000) Na década de 1970, William Miller, um adolescente de 15 anos, tem a chance realizar seu sonho acompanhando a turnê da banda Stillwater como jornalista. Tem Kate Hudson, Philip Seymour Hoffman, Frances McDormand, Anna Paquin, Zooey Deschanel… tantas estrelas que dá pra assistir e brincar de procurar quem são os verdadeiros famosos no filme.
📗Dias de luta: O rock e o Brasil dos anos 80 – pra quem tem saudades das finadas revista Bizz (antes de virar Show Bizz), da Abril e da Rock Brigade, revista que começou como um fanzine. Pra lembrar ou conhecer as bandas que dominaram o cenário musical do rock/pop brasileiro no longínquo anos 1980.
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Adoro as histórias sobre os dias mais felizes da vida! Que bom saber desse pedacinho de vida de vocês, beijão!
Ah lógico que ela era e é um anjo! Quando você é adolescente suas emoções estão pipocando ali a flor da pele e eu lembro da tristeza que doeu. E vi ela chegando com aquela luz da Galadriel! Seria bom se ela soubesse que fez a gente tão feliz naquele dia! Aí rede social: pra isso que você serve. Faz o seu trabalho e acha a anja pra nóis!